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Política e Sociedade

A cultura africana e sua importância na constituição social – pt. 3

27 NOV, 2019 Autor: José Roberto Abramo
A cultura africana e sua importância na constituição social – pt. 3 (27/11/2019)

 O mestre em História Social pela Universidade de São Paulo (USP), Carlos Eduardo Machado Dias, nos diz, que em sua visão, a ocultação da civilização africana por pensadores ocidentais tem origem na construção da ordem mundial branca, a partir do século 16, na conhecida Era das Navegações. Assim a história foi reescrita e deixa para trás o legado africano nas ciências, construindo um imaginário do berço grego, como se fosse apenas ele o protagonista da história. E este berço, assim como o da espécie humana está na África.

Chegaram à errada concepção de que humanidade é dividida em raças e a partir desta forma de ver fez-se uma hierarquia racial. Nesta hierarquia o homem branco foi colocado no topo. O que inicialmente teve explicação religiosa cristã é, posteriormente, utilizada pela ciência e assim impõe a visão que vem a justificar a desigualdade, a escravidão, o colonialismo e o racismo anti-negro e anti-indígena.

O mestre Machado Dias elenca algumas contribuições africanas, por exemplo na matemática que ele diz “a história da matemática para os europeus parecem começar e terminar na Grécia. Mas o osso de Lebombo, um sistema útil para calcular números e o tempo, que foi encontrado na Suazilândia, e o osso de Ishango, que representa uma sistema numérico, descoberto na fronteira entre Uganda e a atual República Democrática do Congo, ambas fíbulas de babuíno, são os dois objetos matemáticos mais antigos do mundo – os primeiros com pelo menos 35 mil anos de idade. Na agricultura a Etiópia é o berço do café e a descoberta de seu efeito estimulante. Assim com o café, a manteiga de karité. A gordura esbranquiçada, extraída da castanha do karité africano é conhecida na forma de hidratante corporal. E ele reconhece na filosofia na essência de Ubuntu. Uma sociedade sustentada pelos pilares do respeito e da solidariedade faz parte desta filosofia africana.

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Osso de Lebombo e Ishango primeiro vestígio legível e visível do surgimento de cálculos na história da humanidade.

O continente africano oferecia uma diversidade de ambientes para sobrevivência de nossa espécie e exuberância de ecossistemas, além da biodiversidade. As oscilações climáticas da África não foram radicais. Durante a Era Glacial, o ambiente da África não ficou muito diferente do que ainda é hoje, com temperaturas altas, planícies, florestas, savanas, montanhas, lagos, rios, praias. Por tudo isto o homem teve seu berço na África.

Era, portanto, de se esperar que a linguagem humana também nasceu na África. E de fato, nascida lá a capacidade de articular a fala e criar sons na comunicação, como um código que todos entendessem, a fala se espargiu para o resto do mundo.

Incrustada no continente africano esteve a civilização egípcia. O Egito, seu povo e sua sociedade foi extremante complexo e rico tecnologicamente. Foram os egípcios que inventaram a primeira mídia da civilização humana, o papiro. E não por acaso a maior biblioteca do mundo antigo foi a de Alexandria, em território egípcio. Calímaco foi um grego que criou o primeiro sistema de catalogação de arquivos, similar ao adotado por Roma. Porém, este sistema foi uma adaptação do que era usado na biblioteca de Alexandria, cidade visitada por Calímaco.

A imagem que se tem do Egito no mundo ocidental está europeizada a tal ponto que sequer historicamente associamos o Egito à África, e ainda mais, o supomos branco, ou de pessoas brancas. O povo do Egito antigo era negro. Textos antigos gregos e árabes assim o relatam. Estes textos têm sido negligenciados pela historiografia moderna.

O historiador, filósofo, antropólogo e político senegalês, Cheikh Anta Diop que nasceu em 1923 e morreu em 1986, foi o responsável por levantar este véu de ignorância a respeito da discussão do Egito negro. Em suas publicações, Cheikh, com base em autores bíblicos e documentos gregos, arte egípcias de diversos períodos, argumentos linguísticos, análise antropológica sobre o povoamento da África a partir do vale do Nilo, e análises comparativas, argumenta a natureza étnica dos egípcios como sociedade negra.

Um termo próprio pelo qual o povo egípcio se representava, KMT, que significaria preto/do carvão.

Cheikh argumenta: “Se a humanidade teve origem nos trópicos, em torno da latitude dos Grandes Lagos, ela certamente apresentava, no início, pigmentação escura, e foi pela diferenciação em outros climas que a matriz original se dividiu, mais tarde, em diferentes raças;  havia apenas duas rotas através das quais esses primeiros homens poderiam se deslocar, indo povoar os outros continentes, o Saara e o vale do Nilo.”

Ele afirma que os fatos provam que o elemento negro era preponderante do princípio ao fim da história egípcia. Segundo Cheikh, os egípcios tinham apenas uma palavra para designar a si mesmos nos textos faraônicos, que era KMT que significaria “os negros”, um plural. O sentido da palavra é literal, e escrito com um hieróglifo representando um pedaço de madeira com a ponta carbonizada. Essa seria a origem etimológica da importante raiz kamit. Dela teria se derivado a raiz bíblica kam.

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Cheikh já investigava o estabelecimento das primeiras comunidades humanas ao redor do vale do Nilo e seu desenvolvimento até a formação da sociedade egípcia.

A origem monogenética é a hipótese mais amplamente aceita para a origem dos humanos. Ela postula que todos os seres humanos hoje vivos descendem de um único grupo de Homo sapiens, surgido 300 mil anos atrás, que teria deixado posteriormente o continente africano há aproximadamente 200 mil anos. Portanto a humanidade toda tem origem no primeiro homem surgido na África e dele descende. Mas, em uma série de análises genéticas, publicadas no jornal Nature, em setembro de 2016, três equipes de pesquisadores concluíram que todos os não africanos descendem de uma única população que emergiu na África entre 50 e 80 mil anos atrás.

E Cheikh já investigava o estabelecimento das primeiras comunidades humanas ao redor do vale do Nilo e seu desenvolvimento até a formação da sociedade egípcia.

Imhotep, o homem que detinha conhecimentos em diversas áreas e que na linguagem de hoje seria um cientista, além de médico, quase três mil anos antes de Cristo praticava quase todas as técnicas básicas da medicina. Poderia, com folga, fazer uso do título de Pai da Medicina, aquele que foi dado ao médico grego Hipócrates.

Interessante observar que o Egito detinha conhecimentos de ciência médica que incluía cirurgias tais como de catarata, cesariana; engessamento de membros contundidos; conhecimento de substâncias anestésicas, cicatrizantes, e inclusive cirurgias complexas como as cerebrais.

As conquistas de conhecimentos médicos foram registrados em papiros e encontrados em sítios arqueológicos.

Além disto, conheciam praticas na área de odontologia com uso de brocas, colocação de próteses dentárias e drenagem de abscessos.

Outros pontos do continente também exibiam avanços no campo da medicina, tais como as presenciadas em Uganda, onde foi registrada uma cesariana feita por médicos do povo Banyoro, demonstrando profundo conhecimento dos conceitos e técnicas de assepsia, anestesia, hemostasia, cauterização e outros. As tribos Dogons detinham conhecimentos astronômicos, por exemplo sobre a estrela Sirius B, invisível sem uso de potentes telescópios, o que se traduziu como um mistério para um povo isolado e tido como primitivo.

O fogo foi inventado no continente africano a mais de 50000 anos. Haya é um povo de fala banto, que habitava uma região da Tanzânia entre 1500-2000 anos atrás, que produziram aço em fornos que atingiam temperaturas mais altas que os fornos europeus foram capazes, entre 200ºC a 400ºC de diferença, até o século XIX. Por outras investigações se constata que a tecnologia metalúrgica se difundiu até Ruanda e Uganda.

Pinturas rupestres na Líbia demonstram que a carroça já havia sido inventada pelos habitantes da África. Datam de 4.800 a. C. no Sudão, a construção de círculos de pedras eretas, que podem ter sido usados para ter marcado eventos astronômicos e estações do ano, como as conhecemos. Os egípcios desenvolveram um calendário de 365 e 12 meses

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Pinturas rupestres na Líbia demonstram que a carroça já havia sido inventada pelos habitantes da África.

 

Outras provas de tecnologia avançada é a construção do complexo urbano do grande Zimbábue, uma contribuição de arquitetura e engenharia. O Egito tem reconhecida a sua capacidade de conhecimento matemático, arquitetura e engenharia na construção das pirâmides.

A colonização contribuiu para a estagnação e eliminação de tradições científicas não apenas na África. Por isto Histórias dominantes da matemática não dão conta da existência de seu conhecimento fora do continente europeu.

Um pedaço de granito encontrado no final do século XVIII nos arredores da cidade de Roseta, no Egito, é como o nome diz, a pedra de Roseta. A inscrição verificada com hieróglifos egípcios e outras línguas antigas decifrada na Roseta nos traz, que todo o conhecimento científico, religioso e filosófico da Grécia antiga, teve origem na África e principalmente no Egito. Grandes sábios gregos como Sócrates, Platão, Tales de Mileto entre outros, estudaram com sábios africanos. E só para confirmar, a pedra data de 196 a.C., quando o Egito era controlado pelos gregos (o chamado período ptolomaico).

Considerando que a passagem de caçador e coletor de frutos além de raízes para agricultura e pecuária foi uma revolução tecnológica humana, mais uma vez verificamos que esta revolução, à princípio se deu exatamente na África. A agricultura africana no vale do rio Nilo data de 18.000 anos atrás e há 15.000 anos em Nairobi no Quênia. Sendo bem mais antiga que no sudeste asiático. E as técnicas de domesticação de animais forma possivelmente depois espalhadas para os vales dos rios Tigre e Eufrates, séculos após.

 

Outro legado africano foi a navegação. No Egito, a tecnologia naval era desenvolvida a ponto de circunavegarem o continente africano 2000 anos antes das navegações europeias.

Os métodos contraceptivos também já eram do conhecimento dos egípcios. O papiro Ebers relata que preparados naturais que permitiam à mulher cessar de conceber.

Rotas comerciais já eram conhecidas dos povos africanos e na Idade Média a África foi o primeiro fornecedor de ouro para o mundo.

O ouro em pó ou sólido, o cobre, lingotes, correntes de ferro, pontas de lanças de ferro, facas de ferro e pano forma comercializados pelos africanos. O cobre, na África, era tão valioso quanto o ouro. Haviam outros metais valiosos, como o chumbo e o estanho.

O rigor imposto pela escravidão no Brasil não foi o suficiente para destruir uma cultura milenar, como é o caso da cultura africana.

Poderíamos continuar levantando a grandeza da civilização africana e sua manifesta cultura e riqueza. Seu aprimoramento que fora interrompido pelo esvaziamento do continente fruto da escravidão. E também não podemos restringir nossa pesquisa ao racismo com origem na escravidão, até porque a civilização negra, ao espalhar-se pelo mundo mostrou seu potencial e sua cultura que ficaram fundadas em outros povos. Resgatar a história da África e da sua cultura é também uma tarefa necessária para o campo da pesquisa educacional.

 Leia também :  A cultura africana e sua importância na constitiição social - pt-2

                       
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